O MILAGRE DAS ÁGUAS

Antônio Lacerda de Meneses


O abastecimento de água no Rio de Janeiro tem origem na fundação da cidade (01 de Março de 1565) quando foi aberto um poço de água cris­talina. Crescendo o povoado ,os moradores foram buscar, nas laranjeiras, as partes limpas do Rio Carioca. Surgem os "aguadeiros", índios escravizados que carregavam água na cabeça para o abastecimento das casas dos senhores do Rio de Janeiro.
Aumentando os clamores da população que exigia água mais próximo do centro da Vila, decidiu-se, por volta de 1620, iniciar as obras de captação das águas do rio Ca­rioca. Iniciada e paralisada diversas vezes, esta obra só teve conclusão em 1723, quando às águas do Carioca foram final­mente canalizadas, passando a jorrar no chafariz de 16 torneiras de bronze, construí­do no Campo de Santo António (Largo da Carioca). Do conjunto dessas obras fazem parte os famosos Arcos da Lapa. Aqueduto em ponte-canal de estilo romano, de belas arcadas de pedra rejuntada, numa exten­são de 270 m. e 18 m. de altura. É interes­sante notar que o aqueduto da carioca fez surgir uma nova profissão na Corte - o cario-queiro, que correspondia hoje no guarda florestal e era encarregado pela limpeza e conservação dos mananciais e calhas para a captação de água.
A cidade do Rio de Janeiro cresce. Fábricas e esgotos poluem os rios da capital. O go­verno de Dom Pedro II publica no Jornal do Comércio: "compram-se terras regadas por água potável para abastecimento da Corte". Um grupo de fazendeiros da Freguesia de Santana das Palmeiras, município de Iguaçu, ofereceram por preço irrisório, diversas áreas de terra, junto ao rio São Pedro. A es­tes terrenos, comprados pelo Governo Imperial, juntaram-se os doados por Francisco Pinto Duarte, futuro Barão de Tinguá. Foi o engenheiro Antônio Rebouças, que em 1870, explorou e certificou a pureza das nascentes do Rio d'0uro e da Serra do Tinguá, tendo sido o primeiro engenheiro a indicar esses mananciais para o abastecimento da cidade. Em 1877, foi concluída a obra que marca o início de uma nova fase do abastecimento de água no Rio de Janeiro: A adutora do Rio São Pedro.
A Estrada de Ferro Rio d'Ouro foi construída em 1876 e tinha por fina­lidade o transporte de material para a obra da rede de abastecimento d'água à cidade do Rio de Janeiro. A Ferrovia partia do bairro do Caju à represa do Rio d'Ouro em Iguaçu, tinha 53 km de extensão.

Reservatório de Rio d'Ouro, Nova Iguaçu

Detalhe do Reservatório de Rio d'Ouro, Nova Iguaçu

Da estação de Vila de Cava partia um ramal até Conceição (atual Tinguá). Em 1886, a linha de Rio d'Ouro é adaptada para o transporte de passageiros. Sob alega­ção de que "Não dava lucro", em 1966, a histórica Estrada de Ferro Rio d'Ouro é desativada.
A capital do Império Brasileiro, vive uma das piores estiagem de sua histó­ria. Políticos e engenheiros buscam en­contrar uma melhor solução para aca­bar com a falta de água no Rio. O jovem engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin, em 15 de março de 1889, assi­na o contrato que se obrigava a “forne­cer para o abastecimento de água desta capital, no prazo de 6 dias, um volume de 13 a 15 milhões de litros de água". O bom Imperador Dom Pedro II, que fora edu­cado pelo iguaçuano Manoel Inácio Sotto-Mayor, o Marquês de Itanhaén, acreditou e apoiou o projeto do jovem engenheiro.
As obras executadas pelo eng. Paulo de Frontin consistiam em represar e ca­nalizar as águas da cachoeira da Serra Velha até o reservatório do Barrelão,
numa extensão de 6 km. A chegada das chuvas coincidiu com o término do prazo de 6 dias. O volume do mananciais aumentou, a adutora do Barrelão voltou à sua capacidade de vazão. É dessa época o episódio co­nhecido como "o Milagre das Águas", muito repercutido nos jornais da época.


Paulo de Frontin contava com a ajuda de outro engenheiro, Raimundo Belfort Roxo. Falecido ainda jovem, foi homenageado dando nome à esta­ção do Brejo. Em volta dessa estação, cresceu Belford Roxo, município criado em 03 de abril de 1990.

Fonte: jornal CAMINHANDO – informativo da Diocese de Nova Iguaçu – ano XVIII – n.o 139 – abril de 2002- p. 14

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