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IGUAÇU VELHA & ONZE BENS CULTURAIS EM NOVA IGUAÇU



Conjunto urbano da extinta Vila de Iguaçu
Hoje conhecida como Iguaçu Velha
Nova Iguaçu, Cava, 3° distrito
Processo n° E-03/O2. 453/78
Tombamento Provisório: 08.04.1983


Iguaçu Velha guarda vestígios da história da colonização do sertão fluminense, iniciada em 1567. Dos vários portos construídos ao longo do rio Iguaçu destacava-se o Porto do Feijão. No final do século XIX e início do XX, os surtos frequentes de doenças tropicais provocaram a extinção de Vila de Iguaçu. A paisagem atual é marcada pelas ruínas da Matriz de Nossa Senhora da Piedade, de fins do século XVII e do muro do cemitério, pelos alicerces de antigas construções e vestí­gios do porto.
Onze bens em Nova Iguaçu
Processo n° E-12/0.117/89
Tombamento Provisório: 12.06.1989
Esses bens culturais, além da igreja de Nossa Senhora da Conceição atualmente no município de Queimados, constituem uma lista de doze marcos significativos do patrimônio cultural da região cujo tombamento foi solicitado em 1988 pela comuni­dade local.
Igreja Santo Antônio de Jacutinga, atual igreja da Prata
Estrada Plínio Casado, s/n°
A atual igreja da Prata foi construída em ele­vação, dominando a paisagem na margem do antigo caminho que ligava o engenho de Maxambomba, atual Nova Iguaçu, à Fazenda do Brejo, hoje Belford Roxo. A igreja, cons­truída em 1773, já estava arruinada em 1860. Reativada no século XX, foi várias vezes refor­mada com alteração no altar-mor e no púlpito e retirada do cruzeiro que ficava na parte da frente. De fachada simples e ornamentação classicizante, a igreja tem pequena torre lateral.
Capela da Fazenda da Posse
Rua dos Contabilistas, s/n°, Alto da Posse
Implantada sobre elevação, este é o único remanescente do conjunto arquitetônico da antiga Fazenda da Posse. Foi, na sua origem, uma das seis capelas filiadas à Freguesia de Santo António de Jacutinga. Construída por volta de 1760, foi consagrada em 1767, pelo bispo do Rio de Janeiro. No século XVIII, a Fazenda da Posse era pro­dutora de açúcar e aguardente, e escoava a produção pelo rio Iguaçu até o Porto do Rio de Janeiro. Já no início do século XX quando a região se constituiu no maior exportador mundial de laranja, a fazenda tornou-se um grande laranjal. Quando a casa de fazenda foi demolida em 1971, só a capela foi preservada. A nave desta pequenina capela se estende para o exterior em um alpendre com seis colunas toscanas apoiadas em um patamar levemente elevado do terreno. Dentro, as imagens de Maria, Jesus e José estão bem conservadas, dispostas em oratório suspenso por estrutura metálica.

Igreja Nossa Senhora Conceição de Marapicu
Largo do Marapicu
A igreja de 1736 está situada no alto de uma colina circundada pela estrada de Madureira e se constitui num marco importante na paisagem, visível à distância. O acesso é feito por caminho calçado de pedras. Com espaços amplos ao redor, tem aos fundos um cemitério. A fachada é simples com frontão triangular. A torre, acoplada ao corpo principal, é arrema­tada por uma pirâmide de concreto e abriga o sino de cerca de 1850. Destaca-se no interior a pia batismal em pedra de lioz. A construção deu-se em 1736 nas terras do capitão Manuel Pereira Ramos e sua mulher Helena de Andrade Sotto Maior. No ano de 1752, recebeu autorização do bispo do Rio de Janeiro para que fosse construída uma "tri­buna de honra". Foi ampliada e reformada em 1853. No século XX teve o interior descarac­terizado com o desaparecimento dos altares colaterais e a venda da talha e do altar-mor.
Capela Nossa Senhora de Guadalupe
Rua da Capela, s/n°, Marapicu
Originalmente implantada em meio a ampla área sobre pequena elevação ergue-se esta igreja construída pelo capitão Manuel Pereira Ramos e consagrada com uma procissão solene em 4 de março de 1750. A data no portal, 1753, seria o ano do término da construção. Seu estilo reúne marcas de diferentes épocas, pre­dominando um gosto barroco, com provável influência jesuítica. Acoplada à nave, do lado esquerdo, há pequena sineira. Destaca-se por­tada lavrada em lioz. O altar-mor desapareceu do interior.

Instituto de Educação Rangel Pestana
Rua Treze de Maio, n° 218, Centro
O prédio do antigo Grupo Escolar Rangel Pestana, cuja construção foi iniciada em 1944, localizava-se ao centro de grande terreno, com extensa área vazia à sua frente. Sua visão a partir da rua foi cortada pela construção, em 1964, do Instituto de Educação de Nova Igauaçu. Além disto, um ginásio construído entre os dois edifícios esconde metade da fachada do Instituto.
Conforme a política vigente no Estado Novo, este edifício segue o estilo neocolonial, conside­rado então um estilo legitimamente nacional. Na verdade a decoração assemelha-se ao cha­mado estilo missiones ou mission stile ampla­mente difundido nas três Américas. O Instituto de Educação Rangel Pestana resultou da fusão dos dois estabelecimentos de ensino em 1972.
Antiga Estação de Vila de Cava
Rua Álvaro Gonçalves, n° 43, Vila de Cava
Construção de dois pavimentos, em estilo missiones simplificado ou californiano, em voga nos decénios de 1930 e 1940. Esta estação difere do estilo classicizante das demais insta­lações do ramal. A bilheteria, em construção ao lado, tem interessante marquise levemente projetada para fora da platibanda conforme o gosto art déco.
Reservatório de Rio d'Ouro
Rio d'Ouro
Construído em esplêndido sítio natural, o reser­vatório recebeu agenciamento paisagístico junto da captação, com o plantio de renques de palmeiras e a construção de muretas sinu­osas em pedra, em ambiente com abundante vegetação. Executado com esmero artístico impecável, tem seu acesso por caminho cal­çado de pedras em pé-de-moleque. Cercado por grades em ferro batido, o reserva­tório tem à sua frente o pequeno pavilhão de manobras, de concepção neoclássica. A fonte para abastecimento do tanque, com carteia indicando a data de 1879, é encimada por duas figuras de aguadeiras em bronze.
Lar de Joaquina e galpão ao fundo
Rua Abílio Augusto Távora, n° 86
Construção eclética, de dois pavimentos, em centro de terreno. Uma escadaria lateral leva ao andar superior, que conta com uma sacada avarandada.Nos fundos, com entrada independente, situa-se o galpão que servia de entreposto para escoa­mento da produção de laranjas. Trata-se de construção industrial de madeira. Uma plati­banda art déco apresenta inscrição referente ao comércio de laranjas, principal produto de exportação na época de sua construção. Em tempos idos, havia um ramal de estrada de ferro que levava ao galpão.
Antiga Estação Ferroviária de Jaceruba
Praça Boldão Paes Leme, n° 3
Remanescente da antiga ferrovia, de grande importância no desenvolvimento da região, a estação construída no início do século XX é a maior edificação na entrada da antiga vila e está perfeitamente integrada ao casario. Urna das duas plataformas originais foi incorporada ao corpo da construção.
Antiga Estação Ferroviária de Tinguá
Rua Nossa Senhora da Conceição, n° 234, Tinguá
Estação ferroviária típica do início do século XX, tinha uma entrada para a rua e outra para a via férrea, hoje desativada. As fachadas laterais cegas são encimadas por pequeno frontão com o nome da localidade e a data de construção.
Antiga Estação Ferroviária de Rio d'Ouro
Rua da Represa, n° 259
A necessidade de manutenção do sistema de captação de águas no antigo Município de Nova Iguaçu, destinada ao abastecimento da cidade do Rio de Janeiro, deu origem ao Ramal Ferro­viário de Rio D'Ouro.
Esta construção típica da arquitetura das estações ferroviárias do inicio do século XX, com frontões nas laterais, está situada no centro da localidade de Rio d'Ouro. Tem a data 1916 inscrita na fachada.

Serra do Mar / Mata Atlântica
Processo n° E-18/000.172/91
Tombamento Provisório: 06.03.1991
Fonte: Patrimônio cultural: guia dos bens tombados pelo Estado do Rio de Janeiro, 1965-2005 / (coordenação editorial Dina Lerner e Marcos Bittencourt). -- Rio de Janeiro : Governo do Estado do Rio de Janeiro, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - INEPAC, 2205. lxxi, 122p.: il.cor

Turismo Histórico-Religioso na Diocese de Nova Iguaçu

Antônio Lacerda de Meneses

No dia 15 de janeiro último a cidade de Nova Iguaçu completou 170 anos. Foi criada como Vila de Iguaçu em 1833. É um bom motivo para co­nhecer e se envolver com seu património histórico.
Localizada à margem direita do rio Iguaçu, nu­ma planície circundada de pequenos morros, a Vila de Iguaçu teve sua origem no povoado sur­gido entorno da capela de N. Sra. da Piedade, construída em 1699. No princípio foi a capela. Feita de pau-a-pique e escondida na bonita pai­sagem, ela testemunhou a fé dos primeiros colo­nos de Iguaçu. Era o lugar para as ladainhas e festas da padroeira. A celebração dos sacra­mentos eram realizadas durante as missões e desobrigas. A capela de N. Sra. da Piedade do Iguaçu estabelecia na nova terra uma referência e garantia uma continuidade. Assim sacraliza-vam com os símbolos católicos da cruz e do sino, a terra antes ocupada pelos índios Jacutingas.
Em 1704 é aberto o Caminho Novo das Minas, favorecendo os povoados da Baixada. Situada na rota do ouro, Iguaçu prosperou e em 1719 é elevada a fre­guesia (distrito). O alvará régio de 24 de janeiro de 1755 deu a paróquia à natureza perpétua. Sendo seu primeiro pároco João Furtado Mendonça.
A freguesia de Iguaçu será beneficiada pela Estrada Real do Comércio, inau­gurada em 1822. A estrada vai reativar o comércio e movimentos nos portos do rio Iguaçu. As mercadorias para consumo da Corte e o café para o mercado estrangeiro eram transportados por tropeiros até os movimenta­dos portos do rio Iguaçu. Durante o ciclo do ca­fé, Iguaçu não se destacou como produtora; po­rém a compra, revenda, armazenagem e o transporte do café trouxeram progresso para a freguesia. Durante a Regência, num clima polí­tico de disputa entre ideias centralizadas (mo­narquia centralizada) e federalistas (autonomia política das províncias), foi criada em 1833, a Vila de Iguaçu formada pelas freguesias de N. Sra.da Piedade de Iguaçu (sede), N. Sra. da Piedade do Inhomirim, N. Sra. do Pilar do Igua­çu, Santo António de Jacutinga, São João de Meriti e N. Sra. da Conceição de Marapicu.
Em 1891 a sede do Município de Iguaçu é transferida para Maxambomba. Em 1916, por acharem feio este nome, mudaram para Nova Iguaçu, homenageando assim o berço do muni­cípio, a Nova (Vila) Iguaçu. A antiga Vila de Iguaçu caiu em abandono, per­manecendo assim até os dias de hoje. Do Município de Nova Iguaçu foram criadas sete cidades: Duque de Caxias (1943), S. João de Meriti (1947), Nilópolis (1947), Queimados (1990), Belford Roxo (1990), Japeri (1991) e Mesquita (1999).


ROTEIRO: “CONHECENDO NOSSAS CAPELAS E FREGUESIAS COLONIAIS”
- Capela de São Mateus de Nilópolis (1637)
- Freguesia de Santo Antônio da Aldeia de Jacutinga (± 1630)
- Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu (1728)
- Capela Nossa Senhora de Guadalupe (1737)
- Capela Nossa Senhora Madre de Deus do Engenho da Posse (± 1760)
- Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Iguaçu (1699)


ROTEIRO: “NOS CAMINHOS DO APÓSTOLO DA BAIXADA Pe. JOÃO MÜSCH”
- Igreja do Sagrado Coração de Jesus da Solidão (1928)
- Praça Getúlio Vargas, em Belford Roxo (onde o apóstolo celebrava a missa campal)
- Matriz Nossa Senhora da Conceição de Nilópolis (1941)
- antigo colégio São José (fundado pelo Pe. João Müsch)
- Matriz de Santo Antônio de Jacutinga (onde o Pe. João Müsch serviu durante 31 anos)
- Memorial Pe. João Müsch (na Cripta da Catedral)
- Colégio das Irmãs (fundado pelo Pe. João)
- Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Queimados (onde aconteceram vários fatos extraordinários)
- Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Japeri (1949)
- Matriz de São Pedro e São Paulo de Paracambi (1928)

Obs. Este é o roteiro mais longo. Pe. João Müsch, falecido em fama de santidade em 1965, percorria toda a Baixada a pé, dificilmente aceitando uma carona.


ROTEIRO: “Na caminhada com Dom Adriano Hypólito”
- Residência Episcopal, em Parque Flora (onde residiu durante 30 anos, hoje Seminário Propedêutico D. Adriano Hypólito)
- Mosteiro das Irmãs Clarissas (1983)
- Casa de Oração Frei Jordão Mai (1978 – antiga sede da Fazenda da Posse)
- Catedral de Santo Antônio de Jacutinga
- Memoria D. Adriano (na cripta da Catedral, onde encontra-se seputado)
- Centro de Direitos Humanos (hoje ocupado por Secretaria Municipal, atrás do Cemitério de Nova Iguaçu)
- Centro de Formação de Líderes , em Moquetá (1967, atualmente sede da Cúria Diocesana)
- Seminário Paulo VI (1986)



Fonte: jornal CAMINHANDO - informativo da Diocese de Nova Iguaçu – ano XIX – n.o 148 – fevereiro/2003- p. 10 (com atualizações de dados dos roteiros feitas em 2008 pelo Pe. Nelson Ricardo)

OS SEPULTAMENTOS NA FREGUESIA DE IGUASSÚ


Antônio Lacerda de Meneses

Desde o período medieval, surgiu na Igreja Católica a tradição de enterrar os mortos dentro da igreja. A origem está na crença de que o morto só res­suscitaria no Juízo Final, se possuísse uma sepultura ad sanctos, ou seja, pró­xima à imagem de um santo ou mártir. Nas Constituições Primeiras do Arce­bispado da Bahia, documento que a norteou a Pastoral da Igreja no Brasil até o fim do século XIX, encontramos no Título LIII, artigo 843: "É costume pio, antigo, e louvável na Igreja Catholica, enterrarem-se os corpos dos fieis Chrístãos defuntos nas Igrejas, e Cemitérios delias: porque como são lugares a que todos os fieis concorrem para ouvir, e assistir as Missas e Officios Divinos, e Orações, tendo a vista as sepulturas, se lembrarão de encommendar a Deos nosso Senhor as almas dos ditos defuntos, espe­cialmente dos seus, para que mais cedo sejão livres das penas do Pur­gatório, e se não esquecerão da morte, antes lhes será aos vivos mui pro­veitosos ter memória delia nas sepulturas".
Nos testamentos notamos a preocu­pação em preparar à Alma para o Juízo Final. Os testamentos eram registrados nos livros de óbitos das freguesias. Até a República, todos os registros da vida civil eram feitos pela Igreja.
Na introdu­ção do Testa­mento, o tes-tador enco­menda a sua alma a Santís­sima Trinda­de, a Virgem Maria, ao san­to do seu no­me, ao santo de sua devo­ção e a "todos os Santos e Santas da Corte do Ceo rogo sejão os meus Inter­cessores". Além dos ape­los feitos aos santos, os tes­tamentos po­deriam ser um veículo de confissão, apontavam seus pecados, suas desleal-dades e dívidas, assim temos o testa­mento de José da Paixão, preto forro, falecido em Iguassú em 1797: "Declaro que sou natural da Costa da Mina efui cazado com Maria Pereira daqual não tive filhos - Declaro que tenho hum filho natural pornome Custodio havido de Lourença Maria Ramos ao 'qual instituo pormeu Herdeiro universal de tudo o que depois de pagas as minhas dividas, cumpridos os meus legados restar dos meus bens..." (Livro de Defun­tos da Matriz de Iguassú).
Para a gran­de maioria o destino de sua Alma seria o Purgatório, on­de aguardaria o seu julgamento. Somente os santos e puros de coração iriam direta-mente para o Céu. Restava para aqueles com pecados gravíssimos, o Inferno. As Almas do Purgatório tinham necessidade das orações dos vivos e da ajuda dos santos, mas também eram do­tadas de santidade, pois poderiam obter a purificação e ir para o Céu. Isso fez sur­gir a devoção e as missas para as almas. Temendo uma longa estadia no Purga­tório, tornou-se costume nos testamentos encomendar missas em intenção das Al­mas do Purgatório. O fazendeiro Alberto Pinheiro falecido em 1779 no seu testa­mento "declaro que deixo meya Capella de Missas pelas almas do purgatório que forem mais da minha obrigação, e assim mais deixo sedigão doze Missas pelas mais necessitadas Almas do Purgatório, declaro que se mande dizer doze Missas pelas Almas dos meos escravos". (Idem)
O fim dos Sepultamentos dentro das igrejas começou a ser debatido no início do século XIX, quando médicos influen­ciados pelas ideias sanitaristas surgidas na Europa, começaram a intervir nas po­líticas de saúde publica. Os corpos dos mortos eram considerados os principais causadores das epidemias que assola­vam o Rio e o Recôncavo. Portanto, era prioridade afastá-los do convívio dos vi­vos. Em 1833, a Regência cobrava das autoridades municipais o fim dos enter­ros dentro das igrejas, pois chegara ao seu conhecimento que na Freguesia de N. Sra do Pilar de Iguassú, "as febres continuavam a afligir os habitantes" e que a causa eram "as continuas exalações miasmáticas produzidas pelas sepulturas dentro do recinto dos templos".
Foi dentro dessa nova maneira de entender saúde, doença e morte que por volta de 1860, foi inaugurado o primeiro cemitério extra-muros (fora da igreja) de Iguassú. Anos mais tarde em 1875 é inaugurado o cemitério da Irmandade de N. Sra. do Rosário, hoje conhecido como "cemitério dos escravos".


Fonte: jornal CAMINHANDO - informativo da Diocese de Nova Iguaçu – ano XX – n.o 168 – novembro/2004- p. 10

O MILAGRE DAS ÁGUAS

Antônio Lacerda de Meneses


O abastecimento de água no Rio de Janeiro tem origem na fundação da cidade (01 de Março de 1565) quando foi aberto um poço de água cris­talina. Crescendo o povoado ,os moradores foram buscar, nas laranjeiras, as partes limpas do Rio Carioca. Surgem os "aguadeiros", índios escravizados que carregavam água na cabeça para o abastecimento das casas dos senhores do Rio de Janeiro.
Aumentando os clamores da população que exigia água mais próximo do centro da Vila, decidiu-se, por volta de 1620, iniciar as obras de captação das águas do rio Ca­rioca. Iniciada e paralisada diversas vezes, esta obra só teve conclusão em 1723, quando às águas do Carioca foram final­mente canalizadas, passando a jorrar no chafariz de 16 torneiras de bronze, construí­do no Campo de Santo António (Largo da Carioca). Do conjunto dessas obras fazem parte os famosos Arcos da Lapa. Aqueduto em ponte-canal de estilo romano, de belas arcadas de pedra rejuntada, numa exten­são de 270 m. e 18 m. de altura. É interes­sante notar que o aqueduto da carioca fez surgir uma nova profissão na Corte - o cario-queiro, que correspondia hoje no guarda florestal e era encarregado pela limpeza e conservação dos mananciais e calhas para a captação de água.
A cidade do Rio de Janeiro cresce. Fábricas e esgotos poluem os rios da capital. O go­verno de Dom Pedro II publica no Jornal do Comércio: "compram-se terras regadas por água potável para abastecimento da Corte". Um grupo de fazendeiros da Freguesia de Santana das Palmeiras, município de Iguaçu, ofereceram por preço irrisório, diversas áreas de terra, junto ao rio São Pedro. A es­tes terrenos, comprados pelo Governo Imperial, juntaram-se os doados por Francisco Pinto Duarte, futuro Barão de Tinguá. Foi o engenheiro Antônio Rebouças, que em 1870, explorou e certificou a pureza das nascentes do Rio d'0uro e da Serra do Tinguá, tendo sido o primeiro engenheiro a indicar esses mananciais para o abastecimento da cidade. Em 1877, foi concluída a obra que marca o início de uma nova fase do abastecimento de água no Rio de Janeiro: A adutora do Rio São Pedro.
A Estrada de Ferro Rio d'Ouro foi construída em 1876 e tinha por fina­lidade o transporte de material para a obra da rede de abastecimento d'água à cidade do Rio de Janeiro. A Ferrovia partia do bairro do Caju à represa do Rio d'Ouro em Iguaçu, tinha 53 km de extensão.

Reservatório de Rio d'Ouro, Nova Iguaçu

Detalhe do Reservatório de Rio d'Ouro, Nova Iguaçu

Da estação de Vila de Cava partia um ramal até Conceição (atual Tinguá). Em 1886, a linha de Rio d'Ouro é adaptada para o transporte de passageiros. Sob alega­ção de que "Não dava lucro", em 1966, a histórica Estrada de Ferro Rio d'Ouro é desativada.
A capital do Império Brasileiro, vive uma das piores estiagem de sua histó­ria. Políticos e engenheiros buscam en­contrar uma melhor solução para aca­bar com a falta de água no Rio. O jovem engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin, em 15 de março de 1889, assi­na o contrato que se obrigava a “forne­cer para o abastecimento de água desta capital, no prazo de 6 dias, um volume de 13 a 15 milhões de litros de água". O bom Imperador Dom Pedro II, que fora edu­cado pelo iguaçuano Manoel Inácio Sotto-Mayor, o Marquês de Itanhaén, acreditou e apoiou o projeto do jovem engenheiro.
As obras executadas pelo eng. Paulo de Frontin consistiam em represar e ca­nalizar as águas da cachoeira da Serra Velha até o reservatório do Barrelão,
numa extensão de 6 km. A chegada das chuvas coincidiu com o término do prazo de 6 dias. O volume do mananciais aumentou, a adutora do Barrelão voltou à sua capacidade de vazão. É dessa época o episódio co­nhecido como "o Milagre das Águas", muito repercutido nos jornais da época.


Paulo de Frontin contava com a ajuda de outro engenheiro, Raimundo Belfort Roxo. Falecido ainda jovem, foi homenageado dando nome à esta­ção do Brejo. Em volta dessa estação, cresceu Belford Roxo, município criado em 03 de abril de 1990.

Fonte: jornal CAMINHANDO – informativo da Diocese de Nova Iguaçu – ano XVIII – n.o 139 – abril de 2002- p. 14

A FREGUESIA DE SANT’ANNA DAS PALMEIRAS



Antônio Lacerda de Meneses



No dia 26 de julho comemora-se na Igreja a Festa de São Joa­quim e Sant'Anna, o culto a estes santos, pais da Virgem Maria é muito antigo, principalmente no Oriente. No ano de 550, o Impe­rador de Roma Justiniano man­dou construir uma capela em honra a Sant'anã em Constan­tinopla (Turquia). Em 1584 foi instituída a festividade de Sant'Anna e escolhido seu dia, por bula do Papa Gregório XIII. Na ocasião foi escolhido o dia 20 de março para São Joaquim, anos depois mudado para 16 de agosto. Somente em 1913 foi que São Joaquim passou a ser co­memorado no dia 26 de julho juntamente com sua esposa. No Brasil Sant'Anna mereceu o título que só é reservado a sua filha, ou seja, Senhora. Na tradição passou a ser a protetora das mulheres casadas, principalmente as grá­vidas.
A devoção a Sant'Anna na região de Iguassú é muito antiga. Consultando antigos mapas no Arquivo -Diocesano podemos constatar capelas e acidentes geográficos com o nome de Sant'Anna desde o século XVIII na região, contudo, a história da devoção de Sant'Anna das Pal­meiras remonta ao povoado de Sant'Anna da Serra do Comércio - é a mesma serra do Tinguá, só que devido a Estrada do Comércio neste trecho, recebeu o nome de Serra do Comércio - está localizada à margem desta importante estrada, próxima de onde hoje é a área da Reserva Biológica do Tinguá. A Estrada do Co­mércio concluída em 1822 começava na Freguesia de N. Sra da Piedade do Iguas­sú e terminava no porto de Ubá no rio Paraíba, daí inter­ligava a Minas Gerais. Anos mais tarde cou­be ao engenheiro mi­litar Conrado Jacob Niemeyer o calça­mento e a manu­tenção desta estrada na sua primeira seção. O engenheiro Nie­meyer se encantou com a região e com a família trocou a Corte (capital do Império) por Tinguá. Em Iguassú no alto da serra, em 1842 nasceu Conrado Jacob Niemeyer (neto) também engenheiro, fundador do Clube de Engenharia, construtor da Avenida Niemeyer e da igreja de São Conrado, atual bairro do Rio com mesmo nome. O enge­nheiro falecido no Rio em 1919 tem como um de seus descendentes o grande arquiteto Oscar Nie­meyer.
A estrada reativou o comércio "serra acima" e o movimento nos portos do rio Iguassú. Mer­cadorias para o consumo da Corte e o café para o mercado estran­geiro eram transportados por tro­peiros. O povoado de Sant'Anna crescia devido ao intenso mo­vimento na estrada. Em 1854 já contava com cerca de dois mil moradores e mais de duzentas casas. Neste mesmo ano, os mo­radores em longo memorial soli­citam ao Presidente da Província (Governador do Estado) a ele­vação à paróquia do povoado de Sant’Anna a majestosa igreja recém construída pelo Barão de Paty do Alferes. Francisco Pei­xoto de Lacerda de Werneck.
Em 6 de outubro de 1855 é criada a Freguesia (distrito) de Sant’Anna das Palmeiras. Sua igreja é elevada à honra de Pa­róquia. Sant'Anna passa a ser distrito do município de Iguassú. Além da igreja Matriz contava com duas escolas, uma para me­ninos e outra para meninas, agên­cia postal, delegacia, cemitério, várias fazendas de café e um pu­jante comércio. Crescia assim a afamada Freguesia de Sant’Anna das Palmeiras e já era apontada como uma segunda Petrópolis, devido a sua localização serrana e clima ameno. Porém a chegada da Estrada de Ferro em 1858, li­gando a Corte a Queimados e anos mais tarde chegando a Mi­nas Gerais, fez com que a Estrada do Comércio fosse gradativa-mente abandonada. Junta-se a isso a abertura da Estrada Rodeio (Eng° Paulo de Frontin) - Paty do Alferes que tirou o prestígio co­mercial de Palmeiras. A Freguesia de Sant'Anna das Palmeiras é abalada economicamente e para de receber investimentos.
Em março de 1889 era anotado no livro de ata da Câmara de Iguassú que ninguém mais residia em Sant'Anna. Consul­tando outras fontes, vimos que isso não correspondia a reali­dade. Acreditamos que a Câmara tinha interesse de aplicar verbas em outras localidades ou em outro fim, daí antecipa o desa­parecimento da Freguesia. É bem verdade, que passados alguns anos, a região é despovoada.A bonita igreja é fechada, tudo é tristeza e melancolia em Sant'Anna das Palmeiras. A his­tórica imagem de Sant'Anna e o sino foram piedosamente levados pelo povo para o emergente po­voado de Conrado e logo foi construída uma nova igreja sole­nemente inaugurada em 1901. Em torno do outeiro da igreja foi crescendo um harmonioso re­canto formado por imigrantes ita­lianos que chegaram para traba­lhar na lavoura do café e comu­nidades negras descendentes de _ africanos que também traba­lharam no café.

a imagem de Santana, venerada em Conrado, vinda da antiga matriz de Santana das Palmeiras


Visite a Reserva Biológica do Tinguá, em local de acesso proi­bido existem as ruínas da Fre­guesia de Sant'Anna das Palmei­ras "A Machu-Picchu de Iguas­sú". Visite a centenária Igreja de Sant'Anna de Conrado, um dos mais belos exemplares da arqui-tetura religiosa da nossa Dioce­se, aproveite para conhecer o en­cantador distrito de Conrado.


Fonte: Jornal CAMINHANDO, informativo da Diocese de Nova Iguaçu – ano XVIII – n.o 142 – julho/2002 – pg. 14.

IGREJA NOSSA SENHORA DA PIEDADE DE IGUAÇU - 300 anos de História


Localizada à mar­gem direita do rio Iguaçu, a Igreja de N. Sra. da Piedade teve sua origem na capela que o alferes José Dias de Araújo, mandou construírem sua casa, no ano de 1699.
No princípio foi a ca­pela. Simples e escon­dida na bonita paisagem, ela testemunhou a fé católica dos primeiros colonos de Iguaçu. Era o lugar para as orações diárias, ladainhas, nove­nas e festas da pa­droeira. As celebrações dos sacramentos eram feitas nas missões e desobrigas.
Em 1751,o bispo do Rio de Janeiro, D. Frei António do Desterro, concede ao povo de Iguaçu a honra da adoração do Santíssimo na Igreja de N. Sra. da Piedade de Iguaçu Foi criada a paróquia em 24 de janeiro de 1755, sendo seu primeiro pároco João Furtado Salvador de Mendonça. Além da administração dos sacramentos, pé. João realizava a cura da alma. Na prática, a cura da alma era o que hoje chamamos de pastoral, e compreendia a pregação, o ensino da doutrina cristã, a missa dominical, o cuidado com o templo e "o remédio das necessidades dos pobres".
Feita de pau-a-pique, a igreja, com o tempo, começou a ruir. Em 1760, o povo começou a construir uma nova igreja, de majestosa arquitetura, na opinião de Monsenhor Pizarro, o visitador apostólico de 1795. Esta obra durou 33 anos.
Hoje, a torre do campanário é o que resiste da Igreja de N. Sra. da Piedade de Iguaçu. A bonita torre clama por uma restauração. É o marco inicial da Igreja em Iguaçu. Foi palco de grandes acontecimentos históricos.
Você pode visitá-la e aproveitar para conhecer a antiga Vila Iguaçu. Vá pela estrada Vila de Cava-Tinguá e, após a Fazenda S. Bemardino, perguntar aos moradores onde fica Iguaçu, a antiga.
A restauração da torre é um belo presente para N. Sra. da Piedade, que durante 300 anos abençoa e protege a nossa baixada.

Antônio Lacerda de Meneses – Historiador e estudioso da História da Baixada Fluminense
Fonte: Jornal CAMINHANDO – informativo da Diocese de Nova Iguaçu – ano XV – n.o 107 – maio/1999

FAZENDA SÃO BERNARDINO















Considerado um dos mais belos e completos exemplares de fazenda colonial no Rio de Janeiro (embora não seja tão antiga – data da segunda metade do século XIX), a Fazenda São Bernardino reunia em seu conjunto arquitetônico todos os detalhes que a fizeram ser tombada, por solicitação do prefeito Ricardo Xavier da Silveira, como patrimônio artístico e histórico pelo SPHAN, em 26 de fevereiro de 1951.
Localizada dentro do território da Vila de Iguaçu, a mais próspera da Província do Rio de Janeiro, a Fazenda São Bernardino é fruto indireto das atividades econômicas de sucesso e da fortuna do Comendador Soares (considerado, por sua forte influência política na Província, o restaurador da Vila de Iguaçu, vindo a ser presidente de sua Câmara Municipal diversas vezes), através de uma de suas sociedades, uma firma comercial com Jacinto Manoel de Souza e Melo. Uma das filhas do comendador –Cipriana Maria Soares – foi casada com umsobrinho de Jacinto Melo (Bernardino José de Souza e Melo, fundador da Fazenda São Bernardino) que passa a ser sócio do sogro em vários outros negócios de sucesso.
Tendo suas terras sido adquiridas a partir da década de 1860 (embora o Comendador já possuísse o sítio Cachimbau a mais tempo), a Fazenda SãoBernardino era servida pela extinta Estrada de Ferro Rio D’Ouro que lhe cortava as terras na altura do citado sítio – havia uma parada em frente à fazenda e que era acessada através da alameda de palmeiras imperiais, das quais, parte ainda subsiste. Acredita-se que o planejamento e a construção da fazenda tenham sido iniciados na mesma década, tendo sua conclusão e inauguração em 1875. A segunda metade do século XIX foi um tempo de muitas e rápidasmudanças, em todos aspectos: político, econômico, social etc; a inauguração das vias férreas e o deslocamento do eixo econômico, as transferências da Matriz Paroquial e da Câmara Municipal para o Arraial de Maxambomba (atendido pela ferrovia), as febres, Lei dos Sexagenários, Lei do Ventre Livre e Abolição da Escravatura, Proclamação da República, entre outros. À Vila de Iguaçu era decretado o fim; a Fazenda São Bernardino, que estava compreendida dentro do seu território, perdia sua importância e passava a ser casa de campo e caça, já quesua produção não objetivava de todo fins comerciais, e sim, a produção de sustento da própria fazenda e das casas dos parentes dos proprietários, na então Vila de Iguaçu.
A fazenda, pouco usada, mas ainda em bom estado, foi vendida aos sócios João Julião e Giácomo Gavazzi pelos herdeiros de Bernardino, em 1917. Gavazzinão a utilizou como residência e, sim, com fins de implantação de suas atividades econômicas –inicialmente a citricultura; assim promoveu violento corte nas florestas existentes na área, abriu uma estrada para passagem dos caminhões de lenhaprejudicando, dessa forma, as bases de pedra e cal das cocheiras e abatendo algumas das palmeiras imperiais. Em janeiro de 1940 o prefeito de Nova Iguaçu, Ricardo Xavier da Silveira, oficia ao SPHAN solicitando o tombamento da FazendaSão Bernardino. Somente em 1951 a fazenda é tombada como patrimônio histórico e artístico.Pouco restou da opulência de outrora. Segundo Waldick Pereira, o próprio Gavazzi saqueou e vendeu quase tudo que havia no conjunto. Em meados dadécada de 1980 ocorre o golpe final da história da São Bernardino: um incêndio suspeito terminou por arruinar o pouco que restara da fazenda, que já havia sido saqueada e abandonada aos rigores do tempo e do clima.






CRONOLOGIA





13/10/1861 – A firma Soares & Melo, como cessionária da viúva Moreira (de Luiz Manoel Bastos), José Joaquim Gonçalves, Manoel José Ferreira, Manoel de Moura Alves e Barão do Guandu (credores de José Frutuoso Rangel, inventariante de sua mulher, Antônia de Moura Rangel), adquire terras do citado inventariante, após o pagamento das dívidas do casal. Tratava-se de um sítio de floresta, em terraspróprias, com trezentas e oitenta e sete braças e sete palmos, mais ou menos, com todas as benfeitorias e onze escravos, pelo valor de três contos de réis. Tudoregistrado no cartório do tabelião José Manoel Caetano dos Santos (processo n° 2.252, existente no Cartório do 1° Ofício de Nova Iguaçu). O sítio é comprado posteriormente por Bernardino José de Souza e Melo por dois contos de réis.
03/06/1862 – Bernardino José de Souza e Melo adquire o sítio Bananal (vizinho ao sítio Cachimbau, do Comendador Francisco José Soares) que era de propriedade de Francisco de Paula e Silva e sua mulher, Maria Maciel Rangel da Silva. Este sítio media 434 braças de testada e 603 de fundos, confrontando-se ao norte com o de José Gonçalves Bastos, ao sul com o de José Frutuoso Rangel, nos fundos com o dos herdeiros do Capitão Joaquim mariano de Moura e na frente com o de Fortunato José Pereira. O citado sítio estava hipotecado a Francisco José Soares e Luísa Joaquina da Costa Neves que abriram mão da hipoteca em favor deBernardino José de Souza e Melo. Os dois sítios são anexados e formam o primeiro núcleo territorial para compor as terras da futura Fazenda São Bernardino.
1862 – Acredita-se que neste ano tenha sido planejada a construção da fazenda.
1875 – Neste ano, conforme inscrição outrora existente na fachada principal daCasa Grande, teria sido concluída a sua construção e inaugurada a fazenda, conforme constava, até 1976, na placa fixada na fachada do prédio.
1917 – Os sócios João Julião e Giácomo Gavazzi compram a Fazenda São Bernardino do Coronel Alberto de Melo, herdeiro de Bernardino.Janeiro de 1940 – Por ocasião do aniversário do Município de Nova Iguaçu, o prefeito Ricardo Xavier da Silveira encaminhava ao diretor do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ofício solicitando a preservação da Fazenda São Bernardino.
26/02/1951 – A Fazenda São Bernardino recebe o tombamento solicitado pelo prefeito Ricardo Xavier da Silveira, ficando registrada, no SPHAN, sob o número de inscrição 390, do Processo 432-T, do Livro “Belas Artes”, às folhas 76.
Julho de 1965 – O historiador Waldick Pereira, do Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu, visita a Fazenda São Bernardino e faz um levantamento do estado da mesma e de seu patrimônio. Restavam algumas peças originais e outras da época da compra: mobiliário, fogão de ferro (ainda em funcionamento), um grande espelho oval na sala principal, candelabros e peças da capela, entre outras. Na senzala e nas construções do engenho: bomba a vapor, peças de carruagens, ferragens, polias, tonéis, um carro-de-boi e móveis quebrados.
Julho de 1965 – Os arquitetos Alexander Nicolaeff e Fernando Abreu, do Instituto dos Arquitetos do Brasil emitem um relatório descritivo a partir de sua visita àfazenda.1967 –A convite de Waldick Pereira, do IHGNI, o Coronel Alberto Soares de Souza e Melo e Bernardino José de Souza e Melo Júnior, herdeiros de Bernardino José de Souza e Melo, construtor da fazenda, visitam-na, constatando o estado em que se encontrava a mesma e, ao mesmo tempo, indicando nas benfeitorias onde se localizavam os objetos, dependências e como eram desenvolvidas as atividades do dia-a-dia.
8/12/1975 –O Decreto n° 1459 dava provisão à desapropriação da fazenda com fins de preservação e criação de um “Parque de Múltiplo Uso”.
30/12/1975 –A Lei n° 50 dispondo sobre o “Uso e Ocupação do Solo/Zoneamento” inclui a região de “Iguaçu Velha” e “Fazenda São Bernardino” na “Zona Turístico-Cultural” do município.
23/04/1976 – O Decreto 1520 ratifica o de n° 1459 e desapropria a fazenda de Giácomo Gavazzi, seus herdeiros ou sucessores.
02, 03 e 04 de abril de 1976 –Realiza-se em Nova Iguaçu um “Encontro Regional de Patrimônio Histórico e Artístico”, promovido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (do Departamento de Cultura da Secretaria de Estado de Educação e Cultura). O debate foi pontuado por dois principais aspectos: “conceito de restauração”e “propostas para a utilização da fazenda”.
06/07/1976 –A Portaria Municipal n° 4 constitui uma comissão para providenciar o levantamento dos bens da fazenda. Constou no relatório desta comissão terem sido encontrados apenas os seguintes bens, além dos prédios do engenho e demais dependências do plano inferior: uma “máquina a vapor”, “um tonel” e “um carro-de-boi”.
Dezembro de 1977 – A Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana (FUNDREM) contrata os serviços do escritório técnico da firma “Júlio Diniz Pinheiro e Carlos Alberto de Souza Arquitetos Associados Sociedade Civil Ltda”, para a elaboração do “Projeto de Restauração Arquitetônica” do conjunto “Engenho e Senzala”. Foram realizadas escavações, coletados restos de ferragens empregadas na construção (cravos, fechadura e espelho, corrente, dobradiça, parafusos), capina e remoção de entulho (resultado do desabamento de grande parte do telheiro, domadeirame e de paredes). Os espaços arquitetônicos e a multiplicidade de serviços foram revelados pela prospecção e através de fotografias antigas.
Meados da década de 1980 – Um incêndio terminou por arruinar o pouco que restara da fazenda, que já havia sido saqueada e abandonada, sem que tenham sido tomadas as providências necessárias e prometidas a tão importante bem, nem pela municipalidade que não possuía recursos para tanto, nem pelo governo federal, que havia se comprometido no projeto.






DESCRIÇÃO PATRIMONIAL
Casa Grande –Construída sobre um promontório que dominava a região, tinha as paredes externas originalmente pintadas na cor amarelo-creme. Portões, janelas, portas e guarnições pintadas de verde-escuro. As paredes internas “caiadas debranco”(conforme inscrição datada de 1887, encontrada em uma das dependências do engenho em 1977). As telhas e tijolos foram fabricados nas olarias próximas.
Escada dupla na entrada principal com gradil e pálio em folha de cobre. Janelas com folhas divididas com rico desenho de vidraçaria colorida. Beiral de telhas de louça azul. Internamente forrada em fino trabalho de estuque. O piso e a escada internos em madeira. À época da compra da fazenda restavam algumas peças originais e outras de período posterior, tais como: mobiliário, fogão de ferro (ainda em funcionamento), um grande espelho oval na sala principal, candelabros e peças da capela, entre outras.Engenhos (Casa de Farinha, Alambique, Engenho de açúcar), e Senzalas (dos escravos da Casa Grande e dos escravos com outras funções) – em nívelinferior e junto à estrada de acesso à Tinguá. Casas do Engenho montadas em sólidos alicerces de pedra e cal, com paredes edificadas com tijolões bem cozidos onde funcionavam os maquinismos (máquina a vapor, moenda, bases das engrenagens que movimentavam as polias da Casa de Farinha) necessários para o fabrico de aguardente, farinha, polvilho, tapioca, açúcar, café e fubá, ou seja, o Moinho de Fubá, a Prensa de Mandioca, Forno, Tanques, etc. Todas essas dependências ligadas à Casa Grande, no plano superior, pela Beira e por umaescadaria. Fora do corpo da Casa do Engenho, e entre esta e o início do pomar, um grande poço para lavagem das canas sujas de lama, para uso nas hortas e no pomar, etc. A poucos metros do Engenho, no sopé de um monte, cercada e coberta por tijolos, havia uma nascente de água potável que era coletada pelos escravos para as atividades da fazenda. Isto, antes da captação das águas da represa de Tinguá, cujos encanamentos passavam paralelamente à ferrovia, em frente à fazenda. De tudo que era fabricado, apenas o polvilho e a aguardente eram produzidos com objetivos comerciais; o restante servia ao consumo interno e de parentes instalados na Vila de Iguaçu. O Engenho produzia 2000 litros deaguardente por ano, segundo informações do Coronel Alberto de Melo, válidas para o ano de 1917.






1 –Alambiques





2 –Base das engrenagens (que movimentavam as polias da Casa de farinha)





3 –Beira





4 –Bomba a Vapor





5 –Caldeira





6 –Carpintaria





7 –Carro-de-boi





8 –Casa de Farinha





9 –Casa do feitor





10 –Cocheiras





11 –Córrego (nascia no pomar, corria ao longo do casario recolhendo as sujidadese desaguando no riacho Cachimbau)





12 –Depósitos de água





13 –Depósito de bagaço





14 –Depósito de lenha





15 –Depósito de cana e Picadeiro





16 –Depósito de produtos químicos (nos fundos da casa de máquinas) usados nofabrico do açúcar





17 –Destilaria





18 –Entrada para descarga de lenha e de cana





19 –Espaços para o purgo e o soque do café





20 –Ferraria, Ferragens e Polias





21 –Fornalhas





22 –Forno





23 –Forno para tachas





24 –Garagem e Guarda de arreios





25 –Guarda de vasilhames e peças sobressalentes





26 –Moenda





27 –Moinho de Fubá





28 –Peças de Carruagens





29 –Plataforma de desembarque de cana





30 –Poço





31 –Pomar





32 –Prensa de Mandioca





33 –Tanques e Tonéis





34 –Tulhas





Renque de Palmeiras Imperiais –marcando a ligação entre o conjunto e a estaçãoda estrada de ferro.


fonte: http://pretinhosidade.multiply.com/

ESTRADA DE FERRO RIO D'OURO



ESTRADA DE FERRO RIO D'OURO, GARANTIA DE ÁGUA PARA O RIO DE JANEIRO (Colunas 163 e 164)





A Estrada de Ferro Rio D'Ouro começou a ser construída em 1876, para o transporte dos tubos de ferro e demais materiais, que completaram as obras de construção das redes de abastecimento d'água, asseguradas por um contrato assinado e dirigido pelo Dr. Paulo de Frontin, obrigando-a fornecer o precioso líquido no prazo de seis dias à Cidade do Rio de Janeiro. Somente em 1883, em caráter provisório, começaram a circular os primeiros trens de passageiros que partiam do Caju em direção à represa Rio D'Ouro. A Baixada Fluminense seria mais tarde dividida em três sub-ramais: Ramal de São Pedro, hoje Jaceruba; ramal de Tinguá, que se iniciava em Cava (Estação José Bulhões); e o ramal de Xerém, partindo do Brejo, hoje Belford Roxo.Em 1896, época que os trens de passageiros passaram a circular com melhor regularidade partindo do Caju, atravessavam a rua Bela, Benfica etc. até passar por Irajá em direção à Pavuna. Nesta estação, última parada antes de adentrar a Baixada, vê-se o antigo canal onde ficava o porto rodeado de trapiches outrora pertencentes ao Comendador Tavares Guerra. Próximo a ele, uma estátua em ferro de mulher oferecia água aos passantes por uma cornucópia, chamada de "Bica da mulata".




Nas terras de Meriti, os trilhos foram assentados sobre a antiga "Estrada da Polícia", que partindo da Pavuna, iam encontrar-se com as terras de "Iguassú", em continuação à estrada que, vindo da Corte, finalizava no Rio Preto. A próxima estação é Vila Rosaly, que substituiu a "Parada Alcântara", e homenageou a esposa do Dr. Rubens Farrula, iniciativa da Empresa Territorial Lar Econômico, loteando as terras denominadas "Morro da Botica" ou dos "Barbados", em referência aos pastores israelitas que residiam próximo ao cemitério dessa comunidade e usavam barbas longas.




Coelho da Rocha - recebeu o nome do proprietário dessas terras, Manoel José Coelho da Rocha, que as cedeu para a passagem dos trilhos e colocação dos dutos, lutando posteriormente para sua transformação em transporte de passageiros. Seu neto Almerindo Coelho da Rocha, herdeiro do que sobrou da antiga fazenda criada por Cristóvão Mendes Leitão em 1739, desfez-se dela, vendendo-a para loteamento.




Belford Roxo - Antiga fazenda do Brejo e anteriormente, Calhamaço, lembrando o antigo canal do calhamaço aberto pelo Visconde de Barbacena (seu antigo proprietário), e que formava um braço do Rio Sarapuy. Sua estação recebeu este nome em homenagem a Raimundo Teixeira Belford Roxo, chefe da 1ª divisão da inspetoria de águas. Havia em frente a esta estação um artístico chafariz de ferro jorrando água, que o povo denominou de "Bica da Mulata", cuja figura mitológica de uma mulher branca sobraçando uma cornucópia oferecia aos passantes o líquido precioso, que a oxidação do ferro transformou em "mulata". Cópia da estátua existente na Pavuna.




Areia Branca - Como o nome sugere esta parada era cercada de extenso areal.




Heliópolis - Hélios = sol; polis = cidade, ou cidade do sol. Denominação de uma antiga cidade do Egito cujos habitantes adoravam o Deus Rá.




Itaipu - Ita = pedra; ipú = onde a água faz ruído, do Tupi-guarani, onde a água estronda.




Retiro - Nome do rio que esta ferrovia transpunha (Atual: Miguel Couto).


Figueira - Nome do proprietário das terras em que foram assentados os trilhos.




José Bulhões - Também proprietário da localidade pertencente à povoação de Cava, início de outro ramal com destino a Tinguá.




Cachoeira - Em suas terras corriam volumosas águas que desciam da Serra do Comércio, compostas dos rios Sabino e Boa Vista, servindo às adutoras do São Pedro.




Paineira - Homenageia uma árvore abundante no Sudeste, da família das malváceas (Atual: Adrianópolis).




Rio do Ouro - Faz jus ao rio do mesmo nome que corre pouco além de sua estação.




Santo Antônio - Neste trecho, a linha atravessava as terras da fazenda da Limeira, pertencentes à Finnie, Irmãos & Cia., e corria sobre três pontilhões.




Saudade - Parada que assimilou o nome de antiga fazenda da região ainda dos tempos das sesmarias, pertencente a uma família portuguesa.




São Pedro - Era o ponto final da linha deste ramal situada na base da serra do Couto. Os trilhos, porém, prosseguiam para o caso de manutenção até atravessarem os córregos Maria da Penha, Jequitibá e o Rio São Pedro, chegando à casa do administrador, limites do morgadio de Matto Grosso e nas vizinhanças das terras do Marquês de São João Marcos, Pedro Dias Paes Leme, descendente de Fernão Dias, o caçador de esmeraldas (Atual: Jaceruba).




Sub-ramal do Tinguá:




José Bulhões - Início dos trilhos que partiam em direção Norte em busca da raiz da serra do Tinguá.




São Bernardino - Situada em terras da fazenda São Bernardino, pertencente a Jacintho Manoel de Souza e Mello, um dos opulentos comerciantes da Vila de Iguassú, com a firma Soares & Mello, onde se vê sua bela casa assobradada em uma elevação do terreno e sinalizada por um caminho que, partindo da estação e ladeado por uma alameda de palmeiras imperiais, ia terminar à entrada principal deste palacete.




Iguassú - Sinalizava a região da antiga Vila de Iguassú. Com uma estrada perpendicular à linha, encontrar-se-ia esta antiga sede do Município e um dos portos fluviais mais notáveis da então Província do Rio de Janeiro.




Barreira - Próximo a esta parada, os trilhos cortam um morro argiloso, justificando seu nome. Aqui foram instaladas nos anos 30 as "granjas da Conceição" que dividiram uma área de 200 alqueires em lotes para chácaras e sítios.




Tinguá - Fim de linha na velha estação de passageiros. Situada à margem esquerda da serra velha, entretanto, seus trilhos continuavam para a direita na extensão de 6 km, até a represa do Bacuburú.

Estação de Tinguá - Daril da Silva - ost 0,80x1,00.jpg


Sub-ramal do Mantiquira :




Belford Roxo - Partindo desta estação em direção Nordeste, a linha transpõe o Rio Botas e atinge a garganta do Manuel Ignácio, cujo nome se refere a Manoel Ignácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho, Márquez de Itanhaém, senhor do morgadio de Matto Grosso, cujas terras pertenceram ao Brigadeiro Francisco de Paula de Bulhões Sayão. Assim como a Fazenda Monte Alegre, que entre seus herdeiros, contava com D. Alice Sayão, casada com o Dr. João de Carvalho Araújo, que viria a ser diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil.




Aurora - Nome também de uma velha fazenda que existiu na região, cortada pelos Rios Sayão, Botas e o Rio Baby.




Baby - Nome da parada, herdado do rio que era atravessado um pouco antes.




Parada 43 - Era antiga posição quilométrica da parada a contar do Caju (42.408m).




Lamarão - Do radical de "lama", significa a lagoa formada pelas chuvas nas depressões do terreno.




Mantiquira ou Mantiqueira - Antiga "João Pinto". Deu-lhe o nome o rio em cujo vale estende-se a linha que se dirige às represas do Galrão. É a estação de entroncamento da linha do Xerém. Está situada na velha Fazenda da Posse, pertencente à família Pereira de Sampaio. Dos mananciais que abasteciam o Rio de Janeiro é o Mantiquira o que contribuía com maior volume de água.




Galrão - Parada e fim da linha situada na antiga fazenda do Cônego Galrão, comprada pelo Governo em 1886 ao seu então proprietário Manuel Ubelhart Lengruber.




Mantiquira a João Pinto - Outro ramal partindo da Mantiquira tomava rumo Norte e passava por Piedade. Pequena parada, após transpor 8 bueiros até chegar em Xerém.




Xerém - Situada na povoação que constituiu a sede do 6º distrito do Pilar, no Município de Nova Iguaçu, tem seu nome originado no antigo proprietário dessas terras, o inglês John Charing, que desde 1725, estava ocupado em alugar barcos para transporte, através do Rio do Couto (ou Pilar), na passagem do Caminho do Ouro. Convivendo com escravos e pessoas de pouca instrução, teve seu nome modificado para Cherem e, posteriormente, definindo sua corruptela em Xerém.




João Pinto - Final da linha deste sub-ramal junto à represa para a captação das águas do rio do mesmo nome.




Registro - este sub-ramal partia de Xerém em direção às represas do Covã, Itapicú, Paraíso, Alfa e Perpétua.




(Guilherme Peres, historiador e pesquisador do Instituto de Pesquisas e Análises Históricas e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense-IPAHB)






Bibliografia:


BARROS, Ney Alberto Gonçalves, "Estrada de Ferro Rio D'Ouro", Apostila, 1999, RJ;


SANTOS, Noronha, "Meios de transporte no Rio de Janeiro", Biblioteca Carioca,1996, RJ;


VASCONCELOS, Max, "Vias Brasileiras de Comunicação", Imprensa Nacional, 1935, RJ.




(Publicada em "O MUNICIPAL", Edição Nº 9064, de 14 A 28-04-2006, pg. 5. CONCEPÇÃO: ALBERTO MARQUES E JOSUÉ CARDOSO)

LINKS

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=272818 - Comunidade do Orkut "Trilhas do Rio de Janeiro"

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=3238383 - Comunidade do Orkut "Rio - Trilhas - RJ

http://www.trilhasdoriodejaneiro.com/ - site sobre trilhas no Rio de Janeiro

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=41647 - Comunidade do Orkut "EcoTurismo"

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=126721 - Comunidade do Orkut "Trilha a Pé Rio de Janeiro

http://www.turistingua.com.br/ - site com o Circuito de Turismo de Tinguá

http://www.overmundo.com.br/guia/tingua-o-nariz-de-deus - interessante artigo sobre a história local com informações turísticas úteis

A ESTRADA DO COMÉRCIO



Tendo sido construída em 1819, pela Real Junta de Comércio, Agricultura, Fábrica e Navegação do Estado do Brasil e Domínios Ultramarinos, daí ganhou seu nome “Comércio”. Conrado Jacob Niemeyer foi encarregado da reconstrução do caminho que partindo da Planície de Iguaçu, (hoje Iguaçu Velho), passava por Santa Ana das Palmeiras, ganhava a serra de Tinguá, e seguia pelo rio Santa Ana, águas acima, em direção a Ubá, internando-se pelas terras situadas entre o Paraíba. Media este caminho Dez léguas de extensão, da Vila de Iguaçu à margem do Paraíba. Seu desenvolvimento na serra do Tinguá era de 3.336 metros. Vencendo uma diferença de nível de 704 metros. No percurso da serra havia um trecho calçado a pedra, na extensão de 1.870 metros. e várias grandes muralhas de extensão. Contavam-se 25 pontes e 44 pontilhões. A estrada partia da Vila de Iguaçu e alcançava a primeira légua antes da ponte sobre o rio Otum. Seguia mais ou menos, o curso do Otum, cortando os ribeirões Cachoeira de Baixo, Cachoeira Grande, Cachoeira Brava e outros, chegando com três léguas ao alto da serra do Tinguá; atravessava os ribeirões da Grota, Posse, Galinhas, Bastos e cortava o rio São Pedro mais ou menos nas proximidades do rancho de Antônio Ferrador. Depois de atravessar o ribeirão do Quilombo, marcavam-se três léguas e meia antes de cortar a serra assinalada com a denominação de Santa Ana. Adiante da ponte sobre o ribeirão das Palmeiras (afluente do Santa Ana) contava-se quatro léguas. A cerca de dois quilômetros mais ou menos da ponte sobre o Santa Ana, assinalavam-se quatro e meia léguas. Pouco adiante indicavam-se à direita a "travessia para a estrada do Werneck" e, à esquerda, o Caminho para Vassouras. Adiante, assinalava-se o "alto da serra da Viúva ou serra Geral", além da qual contavam-se cinco léguas. Atravessava o ribeirão das Pedras Brancas. Em lugar de subir rumo a Paty do Alferes, tomava a direção mais para o sul, galgando a Serra do Mar, em trecho que foi chamado Serra da Estrada Nova — entre as serras do Tinguá e de Sant’ Ana — passava por Massambará e atingia as margens do Rio Paraíba do Sul. Daí, dividia-se: um braço rumava rio abaixo, passava pela fazenda de Ubá, até encontrar o Caminho Novo e da Estrela; o outro braço cruzava o rio, cuja travessia era feita por meio de balsa. Nesse ponto foi instalado um registro de mercadoria, que vai dar origem à localidade de Comércio. Desse local, Comércio, a estrada segue para a Aldeia de N. Senhora da Glória de Valença, atual cidade de Valença, até atingir a Vila de Nosso Senhor dos Passos do Presídio de Rio Preto, na província de Minas Gerais.
Ao longo do século XIX, surgiram várias derivações dessa estrada, a maioria delas sendo construídas dentro do município de Valença e Vassouras. Observe-se que grande parte dessa estrada ainda existe e que aí ainda se trafega. É também importante ressaltar que a construção dessa estrada beneficiou sobretudo as principais fazendas do barão de Ubá, constituídas, à época, de um complexo de 14 sesmarias, capitaneadas pelas propriedades de Ubá e Cazal. O barão de Ubá foi um dos mais importantes membros da Junta de Comércio e também o articulado da construção da estrada. O naturalista August Saint-Hillaire, que descreve maravilhosamente o Brasil nos relatos de suas viagens por muitos desses caminhos, percorreu, em 1822, a Estrada do Comércio, que ele também denominava de Estrada Nova.


Fonte: Projeto Inventário de Bens Culturais Imóveis
Desenvolvimento Territorial dos Caminhos
Singulares do Estado do Rio de Janeiro
Fevereiro 2004